Para minha mãe

 

- Tá doendo muito, mainha.

 

Foi o que eu disse aos nove anos de idade, na sala fria de um hospital público com uma estrutura precária, ao acordar após uma cirurgia feita às pressas.

 

- Vamos rezar filha, que passa!

 

Em pé, ao lado da cama, ela segurou a minha mão e começamos a rezar baixinho. Imagino que as mães tenham uma espécie de senha prioritária na fila de atendimento com o pessoal lá de cima, pois em poucos minutos a dor aliviou e eu adormeci.

 

Foi um momento extremamente difícil – como tantos outros que enfrentamos juntas – e nem por um instante eu vi a minha mãe chorar, perder a calma ou demonstrar medo, embora hoje eu tenha consciência de que ela estava apavorada. Mas essa é a minha mãe: a pessoa capaz de equilibrar força e leveza como nenhuma outra.

A vida teimou muito, desde cedo, em roubar a sua doçura. Na infância, seu pai saiu de casa deixando a minha avó e sete filhos pequenos. Nunca olhou pra trás, e partiu dessa terra sem saber que a sua ausência em nada diminuiu o caráter daquela mulher, ou das suas crianças.

Aos trinta anos a minha mãe já não tinha pai nem mãe e vivia em um casamento difícil, mas sempre fez tudo o que podia para educar a mim e a minha irmã da maneira mais correta possível. Ela jamais permitiu que as adversidades da vida (e a sua teimosia em tornar tudo mais difícil de vez em quando) servissem de justificativa para as nossas falhas.

Todas as vezes que ela sentiu medo, precisou chorar escondido e pedir forças para seguir adiante, simplesmente porque não havia outro jeito. Era uma menina cuidando – da forma mais bonita que se possa imaginar – de outras duas.

 

Eu sinceramente não sei como ela deu conta. Eu não daria conta.

 

Mas toda vez que eu achei que não conseguiria, ela estava ao meu lado pra dizer – como se a sua história já não fosse prova suficiente – que tudo passa e que a gente consegue, como da primeira vez em que ela segurou a minha mão e rezamos juntas.

 

Nesses últimos dias, a vida quis testar novamente a nossa força, e bastava a presença dela para que a minha dor se tornasse mais suportável. Foram dias muito difíceis e ela foi fundamental para que eu conseguisse me reerguer.

Eu sei que ela acompanha o blog e há dias ela me pede para atualizá-lo, então fiz questão de dedicar essa volta a ela, pra reforçar o quanto eu a amo, respeito e admiro.

 

Obrigada, mainha. Saiba que tudo o que eu já fiz de bom nessa vida e tudo o que eu ainda hei de fazer, eu devo a você. Toda a nossa história, cada lágrima derramada, cada noite insone e cada obstáculo vencido estarão para sempre gravados na minha memória. Não como forma de lamento, mas para que eu saiba que sou capaz de seguir em frente e que eu reconheça o quanto a vida foi generosa comigo por permitir que você estivesse ao meu lado nestes momentos, me dando a honra de chamar de mãe aquela que é, sem dúvidas, o meu maior anjo da guarda.

 

Sobre planos e pausas

Dizem que quando a gente faz planos, Deus dá risada. Pensando assim, eu devo ter provocado boas gargalhadas no céu.

Há um tempo eu decidi otimizar minha rotina em vários aspectos e me dediquei a um planejamento minucioso, estabelecendo metas, prazos, limites e horários pra tudo. Estava super orgulhosa do meu desempenho até que a vida, ironicamente, fez questão de me mostrar que nada está sob controle.

Reparem bem onde está a ironia: há um mês eu me sentia angustiada quando não conseguia riscar todos os itens da minha lista de tarefas. Hoje eu sequer posso me dar ao luxo de ter uma lista.

A minha vida está suspensa e meu único objetivo é manter o equilíbrio aqui do alto dessa corda que ora parece estável, ora balança furiosa.

 

 

Eu sei que todo mundo atravessa fases assim, eu mesma passei por algo desse tipo um ano atrás e, talvez por isso, não me imaginava numa situação parecida tão cedo. Definitivamente, eu não estava pronta pra outra.

No meio dessa tempestade, eu tenho buscado a calmaria por meio da minha fé que, cá entre nós, andava um tanto enfraquecida. Sei que às vezes é necessário um mar revolto para fazer nascer um grande capitão e talvez esse momento seja parte de um processo muito maior que eu ainda não compreendo, mas para o qual preciso estar pronta.

Portanto, perdoem a minha ausência. Logo eu reapareço da única forma que sou capaz: inteira.

Isso também vai passar!

 

Sobre a gratidão

Eu não criei esse blog pra ganhar dinheiro (se assim o fosse, teria me dedicado a ele como me dedico ao meu trabalho). Eu criei esse espaço para falar sobre coisas que eu gosto com pessoas que compartilham dos mesmos gostos. Em suma: criei o blog porque gosto de gente.

Dito isso, posso concluir que atingi a minha meta: vocês não fazem ideia de quantas pessoas boas o blog me trouxe nesses poucos anos! Construí amizades com pessoas que estão perto ou longe de mim – e me refiro apenas à distância física – cujos laços são fortes e reais.

Em um dos momentos mais difíceis da minha vida, tive o meu coração invadido por uma onda de amor e solidariedade que vinha de todos os lados, por meio de mensagens carinhosas de pessoas que me abraçavam com a alma.

Nos momentos felizes, sou surpreendida pela quantidade de pessoas que se alegram comigo, ainda que nunca tenham me visto pessoalmente ou desconheçam o som da minha voz.

Essa semana recebi uma mensagem que endossa tudo isso. A Talita – que acompanha o blog há quatro anos – me escreveu feliz por ver que a reforma da casa estava andando, me falou um pouquinho da sua vida e, em determinado momento, disse incluir a mim e a minha família em suas orações.

Eu me emocionei quando li tudo o que ela escreveu e tenho me emocionado todas as vezes que relembro as suas palavras. Não consigo mensurar a beleza contida no fato de alguém que eu não conheço* rezar por mim.

Talita, não há como agradecer a pureza do seu gesto, mas eu quero que você saiba que ele causou um impacto imenso na minha vida, pois me fez ser grata, e os benefícios da gratidão – diariamente comprovados pela ciência – fazem uma diferença danada na vida da gente!

 

 

“Não é a felicidade que nos torna gratos, mas a gratidão que nos torna felizes”.

 

Pode parecer relevante, mas não é: a gratidão faz com que o cérebro libere ocitocina (o hormônio do amor) e dopamina, responsável pela sensação de prazer e recompensa.

Isso nos motiva a agir em direção a novas metas, nos faz querer seguir adiante, ir além. Vários cientistas recomendam que, antes de dormir, a gente agradeça ao menos cinco coisas – podem ser pequenas ou grandes, não importa – que aconteceram durante o dia. Dessa forma nós dormimos melhor e acordamos com mais motivação no dia seguinte.

Ao alimentar esse ciclo, a vida se torna mais leve e, até mesmo os problemas, mais suportáveis.

Há dias eu tenho incluído os comentários carinhosos de vocês na minha listinha, e saibam que essa é a razão de ser do blog, é por isso que há quase cinco anos eu compartilho por aqui tudo que acho válido, e mesmo tendo passado um tempo longe, aqui está o meu coração, grato e feliz, por tudo de bonito que vocês têm me dado.

 

Obrigada. Obrigada. Obrigada.

 

*Apesar de não ter visto a Talita pessoalmente ainda, a sua energia boa me rodeia há anos e espero, muito em breve, trocarmos um abraço apertado.

 

Adeus, ano velho.

Dia desses, enquanto eu reclamava que esse ano havia sido difícil, alguém discordou de mim, alegando que foi um ano necessário. Ouve também quem dissesse que foi um ano de plantio, e que a colheita está logo à nossa frente.

Embora eu acredite que todas as angústias vividas colaboraram para o meu crescimento espiritual, elas me doeram demais.

2015 foi um ano de renascimento, e todo renascimento sucede uma morte.

Ao longo dos últimos doze meses, eu enterrei minhas certezas, muitas convicções, algumas paixões, um bom punhado de mágoas e, infelizmente, pessoas queridas cujas vidas se apagaram como um sopro. Algumas vezes, eu enterrei a mim mesma. Perdi as contas de quantos lutos eu vivi, na sua forma mais intensa, pesada e devastadora.

Desde o começo, eu sabia que havia um propósito pra toda a dor. Eu sempre soube que o universo estava tentando me dizer algo. Teimosa que sou, muitas vezes eu não quis ouvir, e preferi não aceitar certas verdades por temer as mudanças e transformações que elas iriam demandar.

 

 

Precisei ficar exposta a grandes tempestades até me dar conta de que quando não há mais para onde correr, é que a gente aprende a voar.

Eu aprendi, na marra, que não importa o quanto esteja doendo, vai passar. Não importa o quanto seja bom, vai passar. Não importa o quão importante pareça, uma hora vai passar.

 

Finalmente adquiri a consciência de que nós não somos, estamos. E esta é a única certeza que eu quero cultivar daqui pra frente, porque toda dor uma hora se apaga e faz surgir uma flor.

 

Que em 2016 os nossos medos se tornem cada vez menores e que sejamos luz, para nós mesmos e para os outros. Que a fé e a esperança sejam nossas companhias diárias e que nunca, por mais difícil que pareça, nos falte coragem para seguir adiante!

 

Perca o sono agora, pergunte-me como.

Homens dormem profundamente, mulheres fazem uma pausa.

A ciência diz que o cérebro feminino começa a amadurecer aos dez anos de idade. Os homens têm esse start quase uma década depois.

Particularmente, acho que iniciei meu amadurecimento bem antes disso. A verdade é que a gente começa a morrer no dia em que nasce, e eu me dei conta dessa contagem regressiva muito cedo, ao perder uma das pessoas que eu mais amava na vida.

Saber que terminamos o dia com um saldo menor no banco de horas da vida é de tirar o sono, sobretudo quando há cada vez mais coisas a se fazer. A gente pensa nos planos, no quanto de vida já ficou pra trás, nas oportunidades perdidas, nos compromissos assumidos, nessa constante inquietação e – é óbvio – a conta não fecha.

Acho que viver nesse ritmo frenético tem me incomodado um bocado. A gente dá um duro danado pra chegar “lá” e, quando chega, descobre que isso exige muito de nós, que arranca nossos dias, algumas noites, que suga cada segundo do nosso precioso tempo.

E olha que ironia: nos tornamos reféns da vida que sempre quisemos ter. É como passar anos construindo uma gaiola, e por concentrar tanta energia nessa construção, a gente acaba esquecendo como é bom voar, até que as grades que nos cercam parecem cada vez mais estreitas.

 

 

Eu não sei em que momento a gente passou a dar o sangue pra ter esse tanto de coisas que nos fizeram acreditar que eram indispensáveis. Não sei quando, exatamente, me deixei convencer de que eu precisava de tudo que, na verdade, eu não preciso.

Mas em alguma das minhas inúmeras tentativas de retomar o fôlego em meio a essa rotina que, por tantas vezes, nos sufoca, eu me dei conta da bobagem que estou fazendo. Me dei conta de que vivo correndo sem sair do lugar, que fiz da felicidade um pote de ouro no final de um arco-íris que certamente vai passar despercebido lá fora enquanto eu trabalho aqui em uma sala fechada. Eu me dei conta de que esse ano me obrigou a renascer quase todos os dias, justamente pra que eu aprendesse uma lição: nós somos tão passageiros que nem somos, estamos.

E quando a gente consegue aplicar esse conceito no nosso dia-a-dia, é libertador! Tudo se torna mais leve, mais fácil e suportável, porque a gente finalmente aprende a distinguir o que vale do que não vale a pena, o suor, a angústia, as lágrimas.

Só quando desaceleramos conseguimos admirar a paisagem e então nos damos conta de que realmente, a felicidade não é o destino, é a viagem.

 

Ah, só mais uma coisa: Vale lembrar que o bilhete (pessoal e intransferível) deve ser só de ida e que viajar sozinho não tem a menor graça. No que diz respeito à bagagem, quanto maior o excesso, melhor!